5 de junho de 2020

Divulgação Espírita: você está fazendo isso errado

“A maior caridade que podemos fazer pela Doutrina Espírita é a sua própria divulgação”

Quantas vezes já ouvimos em palestras e seminários espíritas essa insistente – e quase irritante – frase atribuída a Emmanuel?

Sim, eu sei que a frase original não é esta, mas tomemos por base a versão que se consagrou no meio espírita e nos concentremos na ideia que se pretende transparecer resumida em apenas duas palavras: “caridade” e “divulgação”.

As redes sociais, que assumiram o lugar de legítimas porta-vozes do livre pensamento dos anônimos e famosos da atualidade, não perdoaram o fato, considerado por muitos como arbitrário, da publicação no sítio da FEB-Federação Espírita Brasileira de uma nota de esclarecimento na qual evoca-se a legislação de direitos autorais (lei nº 9.610/1998), para demandar “aos responsáveis por sites, blogs e demais repositórios eletrônicos a gentileza de retirar do ar obras cujos direitos autorais pertencem à FEB Editora”.

Foi o bastante para criar-se um extenso debate, acusatório em sua maioria, sobre os prejuízos que a divulgação da doutrina espírita iria sofrer a partir deste simples ato administrativo legal e com todo o direito resguardado pela lei, já que a FEB é detentora dos direitos autorais dos “mais de 600 títulos impressos na divulgação de conteúdo espírita”.

E é claro que alegação da tal “caridade da divulgação” – ou a sua falta – acabou sendo resgatada das estantes empoeiradas de espíritas indignados, ganhando comentários e mais comentários em azedas publicações nas “social medias“.

À parte de todo o justo debate surgido entre defensores e opositores, uma antiga questão foi deixada de lado mais uma vez:

– Será que não estaria na hora de aproveitarmos o momento para repensar a forma como fazemos a caridade da divulgação da doutrina espírita?

Desde a revolução provocada pela invenção da imprensa do alemão Johannes Gutenberg, no século XV, que além da agilização do processo de impressão, proporcionou o rompimento do monopólio do conhecimento ao retirar das mãos dos monges copistas, enfurnados em obscuras câmaras dos mosteiros e abadias católicas, para a partir daí ganhar o mundo, que a disseminação de novas ideias tem evoluído a uma velocidade estonteante. 

Da popularização dos panfletos críticos de Martinho Luthero e sua reforma protestante em 1517, passando pela idealização da enciclopédia pelo filósofo e escritor francês Denis Diderot entre 1776 e 1780, até a publicação de O Livro dos Espíritos por Allan Kardec em 1857, o livro tem sido um dos principais meios de propagação do conhecimento humano.

No entanto, em um país onde três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos, correspondendo à 29% da população ou equivalente a 38 milhões de pessoas, são classificados nos níveis mais baixos de proficiência e escrita, sendo 8% deste contingente composto por analfabetos absolutos que não conseguem sequer ler palavras ou frases e os outros 21% considerados analfabetos funcionais, deveria realmente ser o livro o único meio de divulgação do conhecimento espírita?

Se analisarmos o outro lado, o do mercado editorial brasileiro, que no ano passado encolheu 4,5% em valores reais com efeito direto no faturamento das livrarias, que apresentaram queda de R$ 1,9 bilhões – uma variação nominal negativa de 20,8%, talvez possamos começar entender a estratégia inusitada da FEB. Já o número de exemplares vendidos nas livrarias também foi menor em 2018: cerca de 94 milhões, o que corresponde a 46% dos livros comercializados pelo mercado.

Em um país que ocupa o 13º lugar no ranking dos maiores mercados de livros do mundo, esse encolhimento talvez não seja fruto somente da baixa qualidade na educação do brasileiro que, segundo pesquisa divulgada este ano pela Pearson Internacional, ocupa a vergonhosa penúltima colocação entre os 40 países pesquisados, à frente apenas da Indonésia.

Mesmo com tais indicativos, seria ainda raso e leviano utilizar-se deste expediente como única causa para justificar o declínio na procura por livros, que vem ocorrendo pelo quinto ano consecutivo.

Outras causas também deverão ser consideradas, como por exemplo, o conjunto de transformações econômicas, políticas e sociais vividas nesta última década em nosso país.

O consumo de mídias instantâneas em aplicativos de mensagens, onde fatos relevantes – ou nem tanto – acabam sendo traduzidos por memes compostos por uma imagem e não mais que uma dezena de palavras, ou o compulsório poder de síntese do Twitter, que reduz todo tipo de ideia para caiba em seus 280 caracteres, acabam provocando um curioso efeito naqueles que têm pressa ou sofrem da síndrome pós-moderna conhecida como FoMO (“Fear of Missing Out” ou medo de estar perdendo algo, em português). Vídeos de cinco minutos são preferíveis à grandes palestras ou seminários de uma hora e meia, tão aprazíveis na era do VHS; textos mais longos e que poderiam nos levar a uma análise mais profunda são rotulados de “textões” diante de leitores ávidos por uma lacração de no máximo cinco linhas; nunca o ditado que diz que “uma imagem vale mais que mil palavras” fez tanto sentido.

Na intimidade das casas espíritas também não é diferente. Se durante o solene colóquio espírita não houver uma projeção colorida, com gráficos, imagens chamativas e citações em letras grandes retiradas de um contexto qualquer, o sono – o maior inimigo da Netflix – marca sua presença nos primeiros minutos da fala do esforçado e bem intencionado expositor.

Tudo, absolutamente tudo, acaba sendo absorvido pela máquina de “fast-food” dos dias que se seguem rápidos como nunca – embora as 24 horas ainda sejam as mesmas do século XIX,  quando do lançamento feito por Allan Kardec da primeira edição de O Livro dos Espíritos.

Parece então que a “world wide web” é a bola da vez, o grande inimigo a ser combatido… Mas, só parece… pois o meio publicitário já percebeu o potencial dessa gigantesca ferramenta para disseminação de ideias e conceitos segmentados por idade, gênero, hábitos, região e comportamentos, criando necessidades e desejos nos principais mercados consumidores. Prova disso foi o salto de 7,6% do mercado em 2014 para 17,7% em 2018, como forte indicativo de que as verbas de marketing veem migrando gradualmente dos meios mais tradicionais – como tv, jornais e revistas – para o modelo digital.

Segundo estudo do IAB Brasil – que reúne as principais empresas do mercado de publicidade digital em mais de 45 países – o investimento em publicidade digital já totaliza R$ 14,8 bilhões, valor correspondente a um terço do total destinado a campanhas publicitárias no país, o que tem deixado as tradicionais mídias, como a tv, em sérias dificuldades. Para se ter uma ideia, de 2015 a 2018, considerando a inflação no período,  as três maiores redes de tv aberta no país perderam juntas o equivalente a R$ 3,25 bilhões em faturamento com publicidade, obrigando a Record a demitir mais de 2 mil funcionários e a Globo a dispensar atores, que embora consagrados pelo público, apresentavam pouca produção.

Em contrapartida, o investimento em Mídias Sociais ficou em torno R$ 5 bilhões (34% do total e um aumento de 32% em comparação a 2016), enquanto o segmento de vídeo obteve R$ 3,2 bilhões (22% do total, com um aumento de 48% em relação a 2016).

Diante deste desafio, mesmo sabendo que os espíritas – segundo o último censo demográfico do IBGE realizado em 2012 – são os que apresentam os melhores indicadores de educação e renda, com 31,5% de seus adeptos com nível superior e somente de 1,4% não alfabetizado, como ainda poderíamos nos valer de livros escritos com uma linguagem culta, recheados de palavras e expressões formais de uso pouco comum para divulgar a doutrina espírita? Tomemos o exemplo do que nos é apresentado na coleção “A Vida no Mundo Espiritual” ditada pelo espírito André Luiz, cujo exemplar mais recente foi publicado há 50 anos atrás? Nosso Lar, famoso romance do autor, já conta com os seus 75 anos desde a primeira edição.

Até onde irá essa míope visão de utilizar-se da prosaica “Feira do Livro Espírita” como único meio exterior para inserção do conteúdo espírita em uma população que tem apresentado, a cada dia, uma crescente demanda por outros conteúdos?

Sob esta ótica, a decisão da FEB ao fazer valer o seu direito, garantindo a fatia que lhe cabe em um mercado editorial cada vez menor, não surtirá tanto efeito ao longo do tempo, caso as perspectivas econômicas não melhorem.

Como diria Nando Reis: “o mundo é bão Sebastião… o mundo é teu(…)”.

O mundo é grande e o mundo digital é maior ainda; então… tomemos posse dele, pois você só leu este texto graças a este maravilhoso veículo de propagação de ideias.

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