3 de julho de 2020

Espírita ou Espiritista?

“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras”. 

É com esta célebre afirmação que Allan Kardec inicia a introdução de O Livro dos Espíritos, motivado talvez pela ambientação extremamente favorável à nova ciência que surgia em uma época em que ainda se respiravam os ares soprados pelo iluminismo francês. Curioso observar, no entanto, que ele termina este primeiro parágrafo com a seguinte afirmação: “Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.” O que poderia nos levar inadvertidamente ao entendimento de que ambas as formas poderiam ser encaradas como sinônimos, representando assim, a mesma figura.

Porém, se tanto os termos “espírita” quanto “espiritista” são igualmente válidos, conforme sugeridas pelo dedicado professor, por que a segunda forma acabou não sendo tão utilizada quanto à primeira? Seriam esses dois termos realmente sinônimos? Por que o professor Rivail, experiente pedagogo e profundo conhecedor da gramática francesa utilizaria de termos igualmente equivalentes e que pudessem vir até a gerar certa confusão, quando uma das características principais da doutrina espírita seria a sua clareza? Por que, afinal, a Revista Espírita teria esse nome ao invés de Revista Espiritista?

Analisemos alguns fatos…

Na obra “Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas”, publicada pela primeira vez em 1858, ou seja, um ano após a primeira edição de O Livro dos Espíritos e dois anos antes da segunda edição, que como sabemos contém um pouco mais que o dobro de perguntas e respostas, vamos encontrar logo em seu início um pequeno vocabulário onde esta aparente confusão de termos começa a ser desfeita.

Segundo Kardec, a palavra ESPÍRITA seria empregada para designar tudo aquilo que fosse relativo ao Espiritismo como por exemplo revista espírita, vida espírita, filosofia espírita, etc; enquanto ESPIRITISTA deveria especificar somente aquele que adota a doutrina espírita. Gramaticalmente, este pequeno detalhe acaba fazendo muito mais sentido, uma vez que o sufixo –ista costuma ser empregado como partícula formadora de adjetivos e substantivos, dando assim, uma noção de adepto de alguma coisa ou movimento, como por exemplo: liberalista, abolicionista, modernista; algo muito mais natural, não acham?

Explicações semânticas à parte (voltaremos a elas mais tarde), permitam-me uma pequena digressão…

Quem acompanha de perto a produção intelectual, os debates acalorados nas redes sociais e até mesmo as famosas palestras e exposições nos mais diversos seminários espalhados pelo país e pelo mundo, conseguirá notar, sem muito esforço, que nos últimos tempos passaram a coexistir diversas correntes de pensamento dentro do que se convencionou chamar-se de movimento espírita. Esta diferenciação de ideias que vêm à tona com o controverso rótulo de neoespiritismo, se vê diante de um dilema: ser “neo” por ser partidário da origem kardeciana do espiritismo ou simplesmente ser “neo” por não seguir o que foi instituído pela Federação Espírita Brasileira? Sim, a FEB, instituição que sobrepõe o seu selo em um sem-número de livros como garantia de qualidade e de uma certa “pureza doutrinária”. A FEB que em 10 de agosto de 2019 finalmente conseguiu excluir a obrigatoriedade do estudo das obras de J.B. Roustaing do seu estatuto, mas que continuou ainda difundindo as tais obras complementares com toda a obscuridade trazida por um Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho, importante ferramenta de propaganda institucional de onde origina-se o seu lema “Deus, Cristo e Caridade”.

Sendo assim, já que tudo indica que por força das coisas, estaríamos de fato rumando para um nós versus eles, como se fossem dois times de futebol que desejam ardentemente ganhar o mesmo campeonato, voltemos então à questão semântica (sim, eu disse que voltaríamos a ela mais tarde). Percebam que nada, absolutamente nada, poderia soar mais neoespiritismo do que resgatar o desprezado verbete ESPIRITISTA para designar todo aquele que segue, ou pelo menos se esforça em seguir, os princípios fundamentais da doutrina espírita. Então… Por que não passar a fazer uso do termo correto e deixar entregue ao termo ESPÍRITA a designação de tudo aquilo que seja relativo ao Espiritismo?

No entanto, se ainda assim você se achar impossibilitado de renunciar a um termo impreciso e até certo ponto inadequado só porque vai na contramão do que todos fazem em seu simpático, ainda que irracional, movimento de manada, deixo-vos como última provocação a fala do poeta Mário Quintana em seu memorável Poeminha do Contra:

Todos esses que aí estãoAtravancando meu caminho,Eles passarão…Eu passarinho!

Paz e bem a todos na certeza de que esta discussão não se encerra aqui…

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